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O CHARME DOS ANTIGOS DESK SETS

26.7.26

Tal como eu, o meu pai também gosta de velharias e objetos vintage que tem vindo a colecionar ao longo da  vida. Uns compra-os, outros vai "herdando" de familiares e amigos que conhecem bem esta sua paixão e acabam por lhe oferecer peças. Inicialmente, o acervo foi-se acumulando aqui e ali, de forma algo desordenada, até que uma das minhas irmãs decidiu meter mãos à obra e distribuir as peças pelos escritórios da empresa da família. O resultado foram pequenos espaços expositivos que passei a chamar de "mini museus". O mais curioso é que o meu pai, apesar dos seus quase 94 anos, continua a presidir à empresa e a conviver diariamente com esta coleção. Havia, contudo, duas peças que ainda não tinham encontrado lugar nas prateleiras, por estarem bastante degradadas: dois organizadores de secretária, provavelmente do início do século XX, conhecidos genericamente como Desk Sets. Um deles é um porta correspondência com tinteiros; o outro uma bandeja que agrupa, além de dois tinteiros de vidro, um pequeno suporte metálico destinado às antigas penas de aparo. Estes conjuntos eram presença habitual em escritórios, escolas, entidades públicas e até em secretárias domésticas numa época em que praticamente só se escrevia à mão (ou à máquina). Particularmente aprecio bastante objetos concebidos para um fim muito específico mas cuja estética não foi descurada. Ao ponto de, cem anos depois, já sem utilidade prática, se assumirem como peças decorativas. A seguir, mostro um pouco do processo de recuperação destes dois organizadores e o ambiente em que ambos acabaram por ser integrados: a entrada de um dos escritórios. Achei particularmente feliz a forma como a minha irmã conseguiu colocar lado a lado peças de origens, escalas e épocas tão diferentes de forma harmoniosa, dinâmica e leve. Tirou partido da iluminação e de truques simples que explico a seguir. Boa visita!

MIMETISMO: ESCONDER O QUE NÃO SE QUER VER

8.5.26

Já ouviu falar de mimetismo aplicado à arquitetura e ao design? De forma simplificada, mimetizar significa "disfarçar" algum elemento no ambiente. Ocultar uma porta ou um armário, por exemplo. O objetivo desta técnica é manter uma estética mais limpa, com menos informação e poluição visual. Nesta casa deparei-me com um problema: precisava de ocultar as caixas de eletricidade logo à entrada da moradia. A solução mais óbvia seria escondê-las com um quadro, mas até nisso havia entraves: além de não me apetecer gastar muito dinheiro, um quadro que cobrisse as duas caixas teria que ser grande e consequentemente pesado. E com tantos fios a passarem naquela parede seria uma temeridade a colocação de buchas ou parafusos que sustentassem um eventual quadro de dimensões generosas, sob pena de furar algum tubo. Foi quando lembrei-me destas molduras do Ikea, baratinhas, levíssimas mas, sejamos honestos, um pouco feiosas. Que tal então lançar mão do mimetismo e usar a cor exata da parede para tornar as molduras e os fundos invisíveis e totalmente camuflados? Foi um trabalho fácil de executar, rápido e que, a meu ver, deu bastante resultado: os dois quadros integraram-se completamente na parede. Por serem leves, foram pendurados com simples “amigos do senhorio” e continuam fáceis de remover sempre que preciso de aceder às caixas. As ilustrações com suas cores fortes, acabaram por ganhar destaque, sem pesar no ambiente. Conclusão: fiquei fã da técnica e de certeza que vou voltar a usá-la!

Nota: as ilustrações são da autoria da artista plástica Isabel Rocha Leite.

CADEIRA ESTOFADA COM RETALHOS

15.2.26

Parece que ando, sem querer, a especializar-me em restauração de cadeiras! depois desta foi a vez de uma também de estilo muito clássico mas com um trabalho de madeira bastante mais imponente. Não exatamente o meu gosto, confesso, e por isso mesmo resolvi que ao mesmo tempo que preservaria os seus traços originais, iria arriscar no estofo: um tecido fora da caixa, totalmente dissonante da época da peça e do seu desenho de forma a dar-lhe um ar mais jovial e, claro, mais a minha cara. A ocasião foi também a desculpa perfeita para finalmente experimentar a técnica Quilt As You Go (QAYG) que andava há tanto tempo na minha lista. Basicamente, o processo consiste em fixar retalhos sobre uma entretela termocolante com a ajuda do ferro de passar e depois pespontá-los, à máquina ou à mão, prendendo os retalhos à base, obtendo textura e movimento. Recomendo: é uma técnica relaxante, divertida e perfeita para dar nova vida às centenas de sobras que se acumulam em casa de quem costura. Talvez não utilizasse o QAYG num assento que viesse a ter muito uso, mas numa cadeira de quarto, como é o caso, que serve apenas como apoio, não vejo problema.

Quando verbalizei a ideia de um estofo marcante, houve quem sugerisse exatamente o contrário, ou seja, a colocação de um tecido neutro que deixasse brilhar o trabalho da madeira. Mas quem me conhece sabe que sou fã de misturas improváveis e que tenho uma queda especial pelo invulgar. Nesta cadeira tão rebuscada, não fazia sentido ser diferente: já tinha personalidade mas ganhou (ainda) mais ousadia. Tal como eu queria!

DA AUSTERIDADE AO ACONCHEGO: A SEGUNDA VIDA DE UM PAR DE CANDEEIROS

16.11.25

Precisava de um par de candeeiros para as mesinhas de cabeceira de um dos quartos desta casa e lembrei-me de reciclar uns em talha, bastante austeros e fora de moda. Diria mesmo feios, apesar de não gostar de empregar essa palavra. Acho-a limitativa, preconceituosa até, pois ao rotular algo de feio fechamos a porta a um novo olhar, mais atento e afetuoso. A primeira ideia que me ocorreu foi obviamente a pintura: afinal que objeto escuro e sem graça não muda completamente com uma demão de tinta? Apliquei então um primário e a seguir Chalk paint cor palha. O resultado já foi bastante satisfatório, diria uns 200%, mas ainda assim as luminárias continuavam um pouco apagadas. Decidi então torna-las mais amareladas empregando um pincel grosso e quase seco, com muito pouca tinta a puxar para o ocre. Finalmente, lixei levemente certas partes dos candeeiros para que o dourado da talha aparecesse sutilmente por baixo da tinta e provocasse um certo contraste. O segundo passo desta transformação foi escolher os abajures e confesso que não foi tarefa fácil. Não acertei à primeira, nem à segunda… nem à terceira! Depois de meses a procurar, a testar mil possibilidades, a vasculhar lojas físicas e online, nada me convencia. E quando é impossível encontrar as medidas certas e a tal “vibe” perfeita, o que se faz? Exatamente: mete-se mãos à obra e fabrica-se os próprios abajures! Encomendei as estruturas com as dimensões que pretendia numa casa de luminárias, comprei novelos de ráfia e, nó após nó, nasceram dois abajures com toque rústico, perfeitos para suavizar as formas robustas das bases. Posso até parecer convencida, mas acredito que ganhei candeeiros com alma, peças que foram da talha austera ao encanto campestre!

A BELEZA DAS PEÇAS ANTIGAS

24.9.25

Restaurar móveis antigos é sempre um convite à criatividade, mas há peças atemporais, que possuem beleza própria e após anos de utilização tudo o que precisam é de cuidado, respeito e um toque renovador. Penso que esta cadeira é uma prova disso mesmo: chegou-me às mãos desgastada por décadas de uso e não pedia uma transformação drástica. Com paciência e dedicação, libertei-a do estofo coçado, lixei cuidadosamente os seus contornos e reentrâncias e apliquei-lhe goma laca como acabamento, o que lhe deu um bonito tom mel.

No fim, o que era apenas uma cadeira bonita, sim, mas sem brilho, voltou a ser uma peça cheia de charme, pronta a ser usada e admirada mais uma vez.

REMODELAÇÃO DE UMA CASA NA VILA (PARTE II)

15.8.25

Quando há dois anos publiquei aqui o primeiro post sobre a casa, tinha a certeza de que partilharia convosco cada etapa das obras e imaginei-vos a acompanhar tudo, passo a passo. Mas depressa percebi que a realidade era bem menos emocionante: iria simplesmente postar dezenas de fotos de um “durante” sem graça de paredes que passavam de esburacadas a rebocadas e pouco mais. Decidi então esperar pelo momento certo, e ele chegou! Hoje divido convosco o resultado final da casa, com imagens do "agora" e do "antes". Excetuando as camas, um sofá e os tapetes, praticamente tudo o resto são peças recicladas por mim, provenientes das mais variadas origens: encontradas por aí, oferecidas por amigos, herdadas da família. Foram anos de um trabalho moroso e, no fim, quando tudo ficou pronto, confirmei o que suspeitava mas relutava em aceitar: que, somando o que já tinha em uso em casa ao que estava guardado na arrecadação, seria possível montar um novo lar… e ainda sobrava!

Nas próximas fotos, vou mostrar as escolhas que fiz para cada espaço e deixar os links das peças que aparecem nas imagens e que já foram destaque em publicações do blog. Espero que gostem porque ao vivo a casa transmite ainda mais originalidade, conforto, personalidade e é tão gratificante ver o resultado dessa transformação!


PEQUENO ESCADOTE ANTIGO EM MADEIRA

21.5.25

Não sei o que me levou há alguns anos, a entrar numa Thrift store nos EUA, sair de lá com um mini escadote e ainda me ter dado ao trabalho de trazê-lo para Portugal enfiado na mala de porão. Acho que foi mesmo isso que me chamou a atenção: o facto de ser a réplica de um escadote de madeira comum, mas em ponto pequeno. Não resisti ao charme. Veio comigo mas nunca chegou a ter real utilidade, exceto talvez por breves momentos em que foi incorporado a alguma decoração de Natal ou Páscoa. E logo, como era de se esperar, acabou relegado à arrecadação, saindo de lá apenas agora, quando precisei de uma peça pequena que fizesse vezes de mesa de cabeceira. Tinha também guardado mais um candeeiro destes que queria usar, então juntei o útil ao agradável e acabei com uma construção muito parecida a esta (perdão pela falta de originalidade) mas, se a ideia resultou uma vez, porque não reproduzi-la numa segunda oportunidade? O processo de limpeza  do escadote foi fácil e relativamente rápido: lixar pacientemente, abraçar os defeitos, assumir o aspeto rústico e aí está! Missão superada com sucesso.

PEQUENO ARMÁRIO DE RETROSARIA

7.4.25

Não me lembro bem como a peça veio parar às minhas mãos, há 20, 25 anos ? O que sei é que na altura não percebia nada de recuperação/restauração de móveis e portanto pedi a um amigo de um amigo, supostamente entendido no assunto, que fizesse uma limpeza ao pequeno armário que se encontrava algo deteriorado. E de fato, o antigo organizador, propriedade da Companhia de Linhas Coats and Clark (segundo carimbo que se encontra dentro das gavetas) voltou com melhor aspeto e durante um bom tempo serviu como mesa de apoio do sofá de casa,  até que desapareceu para a arrecadação e por lá ficou. Decidi resgatá-lo recentemente, no processo de mobilar esta casa que entretanto ficou pronta (mostrarei brevemente) e conta com, diria, 90% dos móveis oriundo de várias proveniências: ora encontrados na rua, abandonados em andares antigos, ou ofertados por amigos. Uma mistura interessante, verão a seu tempo!

Mas voltando ao pequeno armário de retrosaria, além das superfícies riscadas e da falta de um puxador, incomodava-me o verniz escuro que não deixava ver bem os dizeres que o organizador ostentava: palavras e desenhos pintados à mão num estilo bastante simples, anunciando a marca de linhas "carta". Infelizmente, apercebi-me desde o início que lixar o verniz escuro da peça iria consequentemente apagar desenhos e letras e fazer desaparecer a patine do tempo. Mas não tive alternativa. Cuidadosamente "decalquei" os dizeres em papel vegetal, para posteriormente reproduzi-los o mais fiel possível ao original, ciente de que nunca ficariam exatamente igual, pois tudo o que é feito à mão, tem os defeitos e as virtudes daquele que o executa. Foi um processo moroso e um tanto desafiante e se resultou bem ou haveria outra solução melhor que não me ocorreu, vou deixar ao vosso critério, basta fazer scrolling 👇para entender a metodologia que segui e julgar por vós próprios!

ESCRIVANINHA OBSOLETA GANHA COR, TEXTURA E PERSONALIDADE

29.1.25

Não sei se estarei errada, mas chego à conclusão que certos móveis pensados para funções muito específicas, caminham para um futuro incerto. E a escrivaninha tradicional, clássica, deve fazer parte desse lote! Construídas com gavetas, compartimentos vários, escaninhos e por vezes até com nicho secreto, serviam para guardar documentos, materiais de escritório e instrumentos de escrita. Mas na era digital em que vivemos, quem se senta a uma secretária para ler ou escrever? Estas e outras considerações passaram-me pela cabeça quando resolvi dar cara nova à escrivaninha escura e pesada (no sentido literal do termo, diga-se) que durante décadas vi na casa dos pais do marido, servindo ora de mesa de trabalho do sogro, ora de secretária de estudos da cunhada. Um móvel ultrapassado, diria eu, que para agravar, ainda tinha uma estante para livros, colocada sobre a base, mas que descartei completamente. Se já não é fácil aligeirar visualmente uma escrivaninha e encaixa-la numa casa atual, que dizer de uma escrivaninha + um alçado! Ponderada a decisão de meter mãos à obra no móvel obsoleto, decidi usar materiais que já tinha vontade de experimentar há algum tempo, nomeadamente o papel para decoupage e o decor wax ambos comprados neste site, mas à venda em inúmeros outros locais online. Quando se trata de tornar mais atrativa uma peça austera, a troca de puxadores é, a meu ver, quase inevitável, assim como acho também muito simpático forrar as gavetas. No tampo da escrivaninha usei um tapete de feltro que confere mais conforto à superfície de trabalho e ainda faz vezes de mouse pad para quem usa o rato. Enfim, não foi um trabalho fácil, passou por muitas etapas e consumiu bastaaaante do meu tempo (e por vezes da minha paciência) mas entre a peça mofar para todo o sempre numa arrecadação ou ser de alguma utilidade lá em casa, fiquei com a segunda opção! 


DE MÓVEL CONTADOR A CÓMODA ALTA

11.10.24
Há uma característica em mim que considero um defeito, não é grave mas por vezes, ao contrário do que à priori se possa pensar, limita-me: nos meus trabalhos, sejam eles qual forem, não gosto de repetir cores, padrões, blocos (no caso do patchwork) ou processos. O que me agrada é a novidade, o tentar algo diferente, aprender novas técnicas, ou seja, por mais contraditório que pareça, o desconhecido não me assusta, o que me desmotiva mesmo é a segurança daquilo que já conheço. Isto para dizer que repetir a mesma cor em dois moveis diferentes parece-me redutor e sem criatividade, mas desta vez não tive escolha: a lata de tinta pela metade jazia na dispensa, era exatamente o tom que se encaixava no contexto onde iria ficar o móvel e last but not least, existia o fator pressa que não me permitia grandes divagações nem inovações. No fim do trabalho, agradou-me a forma como ficou a peça, apesar de apenas ter levado um belo banho de chalk paint Paprika red (sim, aquela já usada aqui) e de ter sido completamente despido da over dose de ferragens barrocas que ostentava, dando lugar a uma mão cheia de puxadores minimalistas. Gavetas forradas nos mesmos tons e eis que surge uma cómoda, na minha opinião, bastante vistosa e cheia de personalidade, pois o vermelho, por mais que se queira, não consegue deixar ninguém indiferente!

NEW LOOK PARA CADEIRA ENCONTRADA NA RUA

9.9.24

Parece que a minha sorte de esbarrar em peças interessantes na rua estendeu-se ao marido, que um belo dia apareceu-me com esta cadeira em casa. A peça estava extremamente ressecada e com o estofo tão imundo que ele próprio calçou umas luvas e tratou de arrancar o assento, não fosse este estar infestado de bichos. O que me encantou na cadeira desde o primeiro momento, foram as suas curvas que me remeteram de imediato à estética dos moveis Thonet que tanto gosto. Uma sinuosidade suave que lhe confere uma personalidade ímpar. O processo de restauro foi simples mas um tanto ou quanto trabalhoso: Numa primeira fase tratei de arrancar o resto de estofagem que ainda permanecia e extraí da cadeira seguramente mais de 200 pregos que tinham servido para agarrar assento e encosto à estrutura. Seguiu-se uma segunda etapa onde lixei a madeira até à exaustão. Depois destas tarefas, tratei de consertar as mazelas que felizmente eram poucas: colar aqui e ali e disfarçar dois defeitos nos braços. Veio o acabamento que é sempre a parte melhor e mais relaxante e apliquei-lhe uma goma laca que lhe conferiu um tom mel lindíssimo. Por último foi escolher um tecido que realçasse mais ainda a beleza da cadeira e optei por um de padrão geométrico com um ar a lembrar o art deco e que, na minha opinião, foi a cereja no topo do bolo!

Carácter, individualidade, originalidade e presença seriam as palavras que eu usaria para descrever esta cadeira. Adicionaria ainda, conforto!

BANCO VIRA MESINHA DE CABECEIRA COM CANDEEIRO INCORPORADO

5.8.24

Duas situações inspiraram-me para a transformação de mais um banco antigo de cozinha: a sorte de volta e meia choverem banquinhos na minha horta e o fato de precisar desesperadamente de uma mesa de cabeceira que coubesse num vão de 30 cm. Depois de navegar horas a fio em lojas online à procura de algo pequeno que não só preenchesse o espaço em causa, mas também conferisse ao ambiente uma ideia de conforto, estilo e criatividade ao deitar (sim, sou exigente), lembrei-me de 3 bancos, coçados e gastos, que jaziam há tempos na arrecadação. Quando comecei a trabalhar num deles, a minha ideia era ser eu própria a eletrificar o banco, mas cedo vi que tal empreitada tinha dois problemas: levaria um tempo de projeto e execução que eu não tinha e nada me garantia que fosse bem sucedida na intensão. Passei então para um plano B que no final revelou-se bem simples: decapei o banco e abracei a sua madeira natural assim como todas as suas imperfeições e rusticidade. E como recuei na pretensão de me estrear como eletricista, comprei aqui um candeeiro lúdico e divertido, que parece estar sentado em equilíbrio periclitante, mas na realidade foi aparafusado ao tampo. Personalizei-o com um abajur mais colorido e.....nada mais! o resto é brincar com as perninhas do boneco que servirão para apoiar óculos, o livro da vez ou o telemóvel.

VIDA NOVA PARA UM APARTAMENTO SEM GRAÇA

1.7.24

Na minha vida de arquiteta acontece bastante o seguinte: entro num apartamento nem tão apertado assim, mas entupido de móveis, com os estores a deixar passar apenas uma nesga de luz e um quase nada de ventilação, e imediatamente ponho-me a imaginar como o mesmo se transformaria se o mobiliário obsoleto saísse, uma ou outra parede fosse abaixo e as persianas subissem completamente deixando a claridade entrar a rodo. Se por vezes saio desses mesmos apartamentos para nunca mais lá voltar, de outras é-me dada a oportunidade de operar essas mudanças! E quando chego ao fim de meses de trabalhos, pontuados por alguns revezes, mas também por gratas surpresas, concluo inevitavelmente que o mérito nunca é meu e sim do próprio imóvel, que ali jazia, cheio de potencial, apenas à espera de alguém que suba os estores, derrube uma parede e ouse com alguma cor. Nas próximas imagens vão ver como um andar de três divisões tornou-se num 2 quartos com sala e cozinha integrada e para aqueles que, como eu, gostam MESMO deste tipo de assunto, deixo, no final do post, plantas muito simples do antes e depois das obras para uma melhor orientação. Como extra, sugiro que espreitem aqui e aqui duas peças transformadas de propósito para esta casa. Enjoy!



A CAIXA DE AMEIXAS

27.4.24

A pessoa que me entregou a caixa, não sabia exatamente qual teria sido um dia o seu conteúdo, apenas disse-me que "estava lá por casa há anos", bastante mal tratada e que talvez eu conseguisse de alguma forma recupera-la. Depois de meses a cuidar do baú, uma peça pesada e difícil, que me obrigou a trabalhar dobrada em duas e de joelhos no chão, a perspectiva de ter entre mãos algo de pequeno porte e fácil manuseio era algo bastante apelativo para mim. Levei então a caixa para a oficina que frequento semanalmente, um espaço de aprendizagem mas principalmente de interação e partilha entre pessoas que têm um mesmo prazer em revitalizar objetos de outros tempos. E foi lá que fiquei a saber, pelos colegas menos jovens, que uma fábrica de Elvas, que produzia ameixas em compota mas também ameixas doces secas, utilizava estas caixas para embalar os seus produtos. As ameixas secas vinham delicada e requintadamente acondicionadas nestas caixas de madeira depois de terem sido embaladas num fino papel rendilhado. Ou seja, um primor e um refinamento muito difícil de se encontrar hoje em dia. O invólucro era de tal forma importante para estas casas comerciais, que cada produtor da zona tinha o seu próprio modelo de caixa de madeira assinada. Uma elegância que se perdeu nos tempos, infelizmente! A minha intervenção na caixa foi cirúrgica: limpa-la o mais possível das manchas que enfeavam a tampa, arranjar um canto partido e no final, cera num tom alaranjado para lhe devolver  a distinção de outrora!

 

BANQUINHO COM PINTURA ORGÂNICA

14.3.24

A chamada pintura orgânica é uma tendência recente de decoração de paredes e moveis que sempre chamou a minha atenção. Como sou muito imediatista nos meus projetos, perdendo pouco tempo na conceção dos mesmos, nada melhor do que uma proposta criativa que permite o desenho de formas livres, sem moldes ou figuras perfeitas. Em suma, uma arte sem regras que apenas pede harmonia nas cores e traço solto. Mas se por um lado gosto de ousar e experimentar técnicas novas, por outro prefiro testar em peças pequenas que não requeiram grande responsabilidade, que é como quem diz, em caso de falhanço, fica mais fácil lidar com a frustração. A escolha recaiu então sobre um banco de personalidade forte que levou uma vida de superação: décadas ao serviço da patroa na cozinha; meses aos caídos em meio das obras do andar onde foi encontrado; e um ano à mercê das intempéries na pequena varanda desse mesmo andar. Um banquinho com tal resiliência merecia que alguém o olhasse com carinho! O material usado, foi o que tinha em casa: restos de tinta chalk paint e um marcador acrílico que havia servido para outras situações. A técnica, adaptei de alguns tutoriais que assisti: comecei por traçar as formas que pretendia, a lápis, sobre o assento do banquinho, pintei-as com as cores disponíveis, fiz um ligeiro decapé e finalmente, com o marcador acrílico, desenhei os elementos vegetais. Para selar o todo, duas demãos de cera incolor. Tudo na maior descontração e sem grandes pretensões. Foi um bom treino para uma primeira vez, e deu-me vontade de arranjar uma peça diferente do banco, com superfícies maiores, onde possa brincar mais com o tamanho das formas e dos desenhos. Enquanto isso não ocorre, fiquem com o velho banco, de vida sofrida mas resistente, de volta ao andar onde sempre habitou, mas agora, com incontáveis oportunidades pela frente.

BAÚ PAPRICA

11.2.24

Algumas vezes perguntam-me de onde tiro a inspiração para transformar moveis e objetos e eu costumo responder que a inspiração vem de todo o lado. E quando o digo, de facto sublinho: de todo o lado mesmo, literalmente. E a prova disso é este baú, que acabou por ganhar cor avermelhada e nome de condimento simplesmente porque no catálogo, a referência da tinta tinha uma sonoridade que não só me agradava como também remetia a um certo exotismo: paprika. E na incerteza do que fazer com o baú depois de me ter apercebido que originalmente, ele tinha um tecido maravilhoso, às riscas, mas que este havia sido pintado e era impossível lixar a tinta sem desfazer o pano já fino e gasto pelos anos, fui de fato pelo caminho de dar-lhe uma roupagem completamente distinta, com uma cor chamativa e um interior surpreendente: surgiu então a chalk paint Paprika Red pelo lado de fora e o tecido adesivo da Glu, lá para dentro. Uma parceria perfeita, que me levou a ficar com esta mala de porão, que certamente tantas viagens fez e tantas prendas transportou, aberta na sala lá de casa, só para apreciar o casamento feliz entre cor e padrão. Isto, é claro, enquanto ela não se muda definitivamente para a casa da vila que apresentei aqui. Até lá, vou lavando a vista...

MOVEL EM MADEIRA TRABALHADA GANHA NOVA ROUPAGEM

9.1.24

Em meados do ano passado recebi de uma instituição centenária em extinção, da qual eu fazia parte, boa parte do mobiliário da sua sede. Uma herança um tanto ou quanto pesada, no sentido literal do termo, uma vez que me obrigou a encontrar um local para guardar o recheio, mas também um legado bastante desafiante, pois irá obrigar-me a dar largas à imaginação se quiser modernizar as peças, continuando a respeitar a história que elas encerram e que eu tão bem conheço. A primeira que transformei, foi um móvel que em minha opinião encaixava-se como uma luva no local que eu tinha em mente, mas cujo trabalhado da madeira, além de lhe dar um ar sisudo e carregado, não realçava. Optei por dar-lhe uma cor mostarda e no caso usei tinta chalk paint cor Arles da Annie Sloan que é cara, reconheço, mas das tintas deste tipo que já utilizei, é sem dúvida a que tem melhor cobertura e evita duas etapas estafantes: lixar e dar primário. Além do que, as cores são só fabulosas! Perdi a conta de quantas voltas dei à peça e em quantas posições me coloquei para conseguir alcançar todos os cantos e retorcidos. Usei também vários tamanhos de pincéis e apliquei umas quantas demãos. Digamos que foi um trabalho em que arrisquei mas que depois de pronto encheu-me de orgulho. No final, dois pequenos detalhes, que não parece mas fazem uma certa diferença: tassels pendurados nas ferragens e tecido autocolante no interior. E aí o têm, de roupagem nova, saído de um ambiente taciturno para uma casa renovada e cheia de luz que pode ver aqui.

VIDA NOVA PARA UM MÓVEL DE COZINHA

25.7.23

Se não me engano este móvel saiu exatamente do mesmo apartamento onde se encontrava este outro. Aliás, agora que escrevo isto, a certeza é quase total, quanto mais não seja pois são ambos muito parecidos, e enquanto o outro estava cravado na parede de um quarto de arrumos, este cravado estava num canto da cozinha. De onde foi arrancado sem grande cuidado, diga-se, agravando ainda mais o seu estado de saúde que já não era dos melhores. Por estar fixado num canto, não tinha lateral (o outro tinha, era uma madeira tosca, mas pelo menos existia) e a parede da casa era o seu fundo. Ou seja o que me chegou às mãos, basicamente, foi um armário só com um lado, sem costas, com camadas de tinta e de gordura, mas a essa última característica, já me habituei. Tal como o outro, a cimalha também não é completa, já que estavam ambos colocados em posição de canto, mas quanto a isso, até acho que lhe dá um certo carisma, faz parte da sua história. O que fiz, basicamente, foi pedir a um carpinteiro que me fizesse uma lateral nova, depois desta colocada, lixei até à exaustão tintas velhas e gorduras; e com tinta, stencil e "transfers" elaborei um fundo para o móvel. Por curiosidade, quando descartei as telas plásticas que compunham as portas, estive que tempos a pensar onde iria arranjar rede de galinheiro com buracos que não fossem muito grandes, de modo a não ficarem desproporcionais depois de montadas no móvel. Já andava desmotivada com a procura quando, numa viagem rápida a Copenhaga, e depois e entrar numa rua que não fazia parte do roteiro para esse dia, dou de caras com uma loja enorme da Panduro, marca Dinamarquesa de arte e artesanato que adoro. Entro, e saio de lá feliz da vida com a tela de galinheiro com buracos pequenos e proporcionais, exatamente aquilo que queria! Prova de que quando tem de ser, as coisas acontecem mesmo! Nas fotos que ilustram este post, o móvel aparece colocado sobre dois bancos, pois a cozinha à qual ele se destina ainda não está em condições de o receber, mas breve, breve, irá encontrar o seu lugar em meio a móveis modernos, que decerto realçarão ainda mais a sua rusticidade. E voltarei para mostrar!

REMODELAÇÃO DE UMA CASA NA VILA (PARTE I)

4.5.23

A casa foi comprada num impulso: o marido tem um carinho especial pela vila, terra dos avós e da mãe; eu deixei-me levar pelas simples linhas arquitetónicas da construção. Entre indagar quem seriam os donos, encontrarmo-nos com eles e fazermos a escritura, não sei precisar, mas foi tão rápido que de repente vimo-nos com o menino nos braços: uma casa dos anos 50, com adega e primeiro andar, num terreno que nunca mais acabava, muitas ideias na cabeça e poucas certezas. A revelação deu-se quando numa visita a casa, num dia daqueles em que se vai lá para olhar à volta e sentir o que ela pedia, vemos um alçapão no teto da cozinha e decido subir por ali para verificar o estado da estrutura do telhado. É difícil expressar por palavras a alegria que me invadiu quando a lanterna do telemóvel iluminou uma das estruturas mais bonitas que já vi em toda a minha vida de arquiteta (e creiam, já lá vão mais de 30 anos e bastante experiência em remodelações): não só as madeiras estavam bem preservadas, como traves e vigas formavam um desenho bem fora do vulgar, com os elementos em esforço convergindo para dois pontos centrais que pairavam no ar. Voltei para baixo com a convicção de que desse para onde desse, uma coisa era certa: a estrutura de suporte do telhado iria ficar completamente à vista. E foi assim que se passaram alguns anos desde o dia dessa súbita inspiração: o projeto foi desenhado, submetido e aprovado pela câmara e as obras começaram lentamente de acordo com a disponibilidade do nosso tempo e do nosso bolso também. Os trabalhos ainda estão longe de acabar, mas entre paredes atiradas a baixo, novos vãos rasgados e uma delicada pesquisa na renovação e preservação do telhado, a visão daquele dia à luz do telemóvel, com os pés cuidadosamente equilibrados em duas vigas para não pisar em falso, já se concretiza. Mesmo na confusão da empreitada, já há mais leveza no ar e toneladas de luz a invadir todos os cantos. Na minha cabeça, os espaços já se encontram totalmente acabados, aqui no blogue vou continuar a mostrá-los, em vários episódios, consoante os progressos, seguindo as minhas intuições e principalmente ouvindo o que a casa pede. 

MESA DE APOIO INDIANA

6.2.23

Apesar do título que dei a esta postagem, não tenho certeza que a mesa tenha vindo da Índia, mas tendo em conta o estilo e também o fato de que a pessoa que a ofereceu passou parte da vida naquele país, é muitíssimo provável que a peça seja originária de lá. De vez em quando a minha cunhada lembra-se de me entregar o que tem lá em casa partido ou bastante estragado pelo uso, na esperança que eu faça algum milagre. Quase sempre passa meses guardado até eu me entusiasmar com o que me foi confiado, seja porque geralmente são peças que não fazem muito o meu gosto ou porque precisam de um restauro propriamente dito e não de um New look, e não sou nem pouco mais ou menos restauradora. A mesinha, dobrável, em madeira exótica trabalhada e um tampo em latão, estava partida e o verniz escuro que a cobria, não dava realce ao desenho rebuscado dos pés. Portanto a minha função foi basicamente fazer uma limpeza profunda, colar o elemento partido e dar-lhe um acabamento que conferisse leveza, no caso, cera. O resultado final pode não arrancar "uaus" de admiração e a mesinha não ser protagonista de um antes e depois impressionável, mas há peças mesmo assim, que não pedem roupagem nova, apenas cuidado e apreço. Uma espécie de afago que lhes levante a auto estima.


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