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A CASA DOS MEUS AVÓS

6.5.21

Em 2013 visitei a casa dos meus avós paternos, no nordeste do Brasil. Senti que seria a última vez que lá ia e tirei fotos de alguns elementos que mais me marcaram na minha infância e dos quais gostaria de guardar memória. Fotografei-os não por serem bonitos ou dignos de algum registo especial mas para não me esquecer das sensações que eles me causavam quando, uma vez por ano, nas chamadas "férias grandes" escolares, a minha mãe embarcava numa longa viagem transatlântica com as 3 filhas para se reunir à família. 

Na verdade ficávamos sempre hospedados na casa dos avós maternos, um casarão dos anos 50, bonito, confortável e bem decorado, curiosamente situado na mesma rua da casa simples dos avós da parte do pai. Passávamos portanto os meses de férias de verão a saltitar entre uma casa e outra. Dois mundos diferentes. Dormíamos na vivenda da família da mãe e brincávamos na casa dos pais do meu pai, que é onde estavam os mais de 20 primos que tínhamos por lá. 

Meu avô paterno tinha dado um pouco do terreno da casa a cada filho quando estes casavam (menos ao meu pai que tinha imigrado para Portugal) para que estes construíssem seus próprios lares, de modo que todos moravam porta com porta numa grande comunidade. É imaginar a alegria, a cumplicidade, as brincadeiras que emanavam daqueles 20 miúdos, ou mais, criados praticamente como irmãos. Para as minhas irmãs e eu era aterrar (literalmente) em um ambiente totalmente novo, que ao mesmo tempo nos seduzia e nos intrigava. Eles eram livres e audaciosos, nós, recatadas e tímidas. Olhando hoje para aqueles tempos, sinto que nos esforçámos para nos integrar mas não tenho a certeza que o tenhamos conseguido. Até porque o que ficou mais na minha memória não foram tanto as brincadeiras que inventávamos juntos mas as sensações que a casa sempre me passou. 

A primeira e mais importante era a falta de vidros nas janelas. Aliás nem existiam janelas. Haviam vãos que eram encerrados por venezianas, treliças, grades abertas e demais elementos vazados que permitissem arejar a habitação e enganar o calor que se faz sentir naquela região 365 dias por ano. Esta falta de fronteira entre interior e exterior era novidade para mim. Nas poucas noites que lá dormi, estar deitada na cama e ouvir os passos ou as conversas de quem passava na rua era quase perturbador. 

A casa tinha sido acrescentada ao longo dos anos, sem qualquer coerência ou harmonia nos materiais usados e era uma autêntica manta de retalhos no que diz respeito aos acabamentos. Nem sequer havia um estilo único, cada cómodo tinha sido decorado ao bel prazer de quem o ocupava. O quarto dos meus avós era muito austero, com móveis grandes e escuros e lembro que as paredes da sala ostentavam vários trabalhos feitos pela minha avó: tapeçarias e pratos pintados. Símbolos religiosos também estavam bastante presentes, o que ia muito na contramão da educação que os meus pais me davam. A parte mais recente da casa era a cozinha, móveis bem alinhados, paninhos pintados pela avó, onde os eletrodomésticos eram guardados cuidadosamente dentro de sacos, talvez para não apanharem pó lá de fora, não sei. 

Na época era tudo muito extraordinário para mim. A minha realidade era um apartamento grande e requintado no centro de Lisboa, onde minha mãe impunha suas regras espartanas e não havia lugar ao improviso. Hoje entendo esta casa, espelhava a história de vida dos meus avós: o terem vindo do província, terem acrescentado a casa à medida que a família crescia, o terem partilhado mais tarde o terreno para ajudar os filhos, a falta de vidros por razões práticas e a generosidade de manterem as portas sempre escancaradas para filhos, genros, noras e mais uma penca de netos que todos os dias entravam, saiam, dormiam, comiam e brincavam sem ter que pedir licença. Estou convicta de que, afinal, já era a tal "casa com vida" de que tanto se fala hoje em dia.


Meu avô costumava sentar-se nesta cabeceira da mesa entre as 11h30 e o meio dia, para almoçar. Para ele, o dia começava e acabava muito cedo. A porta amarela só era trancada à noite, na hora de se recolherem:

UMA CASA COM CHEIRO A FÉRIAS

31.12.19
No final do mês de Novembro, viajei ao Brasil para tratar de diversas pendências pessoais, daquelas que envolvem repartições públicas e as inerentes idas e vindas por falta de documentos e papéis. Quando eu pensava que o assunto estava solucionado ou pelo menos em andamento, recebia um telefonema a pedir mais qualquer coisa e voltávamos (quase) à estaca zero. Isto para dizer que foram 10 dias bastante corridos e até mentalmente estafantes, não fosse incluir um fim de semana, em que nada podia ser resolvido e eu receber o convite de uma amiga para passarmos esses dias de ócio forçado no apartamento dela da praia. Giovanna é das minhas melhores amigas desde sempre, nossos pais já se conheciam de solteiros, nossa amizade é sólida e entre outros interesses comuns temos o gosto pela decoração e mesa posta. A única grande diferença entre nós é que enquanto eu gosto de tudo junto e misturado, ela adora combinar! E por isso achei graça trazer hoje, como última publicação do ano, a casa de praia da Giovanna, cheia de sol e luz, onde fui recebida com tanto carinho e mimada até mais não! Corais, conchas, búzios, peixes, cavalos marinhos, sereias, detalhes alusivos ao mar e com cheiro a férias numa paleta de cores que traz paz e tranquilidade!

EM CASA DA TIA

23.10.15
Por vezes o melhor das férias nem é a quebra de rotina que se avizinha ou a expetativa da viagem a empreender, mas sim o fato de ficarmos hospedados na casa da família. Casa que é nossa velha conhecida, que tem hábitos característicos, que contém tantas recordações e onde somos recebidos com muito carinho. Assim é a casa onde vivem os meus tios há mais de 50 anos. Um oásis no meio da cidade, que começou pequena, foi ampliada com a chegada dos filhos, modificou-se quando estes casaram, e continua em mutação, não tivesse a minha tia, uma mente inquieta e um marido colaborante. Um lar sempre cheio também, de objetos com valor sentimental, de netos, de amigos, e da parte lusa da família, que de vez em quando atravessa o oceano e instala-se lá.
Na casa da tia há muitas lembranças de viagens e peças de afeto que falam dos donos e da família, mas há três coisas que gosto particularmente de rever e contemplar quando lá vou: a parede com a coleção de azulejos para a qual contribuo sempre que surge oportunidade; a mesa e cadeiras de ferro que ladeiam essa mesma parede e que antigamente era o mobiliário do alpendre da casa da minha avó; e o jardim de inverno com azulejos amarelos na sala de jantar, que desde pequena espantava-me pois quando chovia, molhava dentro de casa e pouco depois com o calor próprio do clima equatorial, secava, deixando um cheiro característico no ar. Para quem vinha da Europa, esta comunicação explícita entre exterior e interior era coisa quase insólita!
Apesar das constantes alterações, há elementos que se conservam, tais como as madeiras maciças das portas e janelas, a pouca luz que entra na casa no intuito de enganar o clima quente e húmido da região, a vegetação alta e densa do jardim que invade também os interiores, o cheiro a tapiocas acabadas de fazer, logo pela manhã. E claro, há algo que se perpetua e até se acentua com o passar dos anos, e que é o afeto dos tios.

CHEGOU AO PARÁ, PAROU. TOMOU AÇAÍ, FICOU.*

7.11.14
Não foi por ter provado açaí que parei, e muito menos lá fiquei. Mas a verdade é que esta não foi a primeira vez que fui ao Pará e espero que não seja a última, pois voltar é a oportunidade para redescobrir e fazer várias viagens numa só, não fosse a cultura deste estado riquíssima e a culinária, uma das melhores e mais diversificadas do Brasil. Não pretendo escrever aqui um diário dos dias que passei em Belém e na Ilha do Marajó, mas apenas dar-vos a conhecer aquilo que mais me atrai na capital e nessa enorme ilha (na verdade um arquipélago), aos meus olhos de estrangeira. uma estrangeira que volta sempre.
Uma experiência a não perder é acordar bem cedo, preparado para enfrentar o calor equatorial e ir ao encontro dos sabores e os aromas do Pará no mercado de Ver-o-Peso, na parte velha da cidade.











AS FÉRIAS ACABARAM ?

19.8.13
Porventura ainda não. Talvez sobre mais uns dias. Vai depender disto, daquilo e daquilo outro. Logo se vê.

Mas Fortaleza, cidade de onde é originária e mora parte da família, ficou para trás.

Fortaleza é um paraíso para o turista: calor o ano inteiro, praias lindas, mar a perder de vista, água quente. Serras. Festa, muita festa. Frutos exóticos deliciosos, culinária diversificada. Enfim, quem visitar, tem diversão garantida.

Mas eu não sou turista. Tão pouco sou nativa, para usar um termo caro ao meu pai.
E tenho dois defeitos (juro que faço um esforço para mudar): não sou fã de praia nem grande amiga do calor!

Então tenho uma maneira muito própria de viver Fortaleza: acordo quando a cidade acorda.
E assim não perco a melhor parte do dia
Levanto-me sempre com o nascer do sol, e vou correr à beira mar.
É ali e aquela hora que muita coisa se passa.


Chegam as jangadas coloridas, carregadas de peixe, e os pescadores usam troncos e a força braçal para colocar as embarcações na praia.

Surge o rapaz do côco, aparece o vendedor de fruta e o dos chapéus de palha. O Tarcizo espera pacientemente, com seus modernos óculos espelhados, os primeiros clientes do dia. Descasca-se e escolhe-se feijão verde. A velha senhora toma o sol da manhã mas previne-se com a sombrinha rosa. E se estivermos atentos, frases aparentemente banais, dão-nos o que pensar.

A carrinha pão de forma apregoa as famosas e belas praias do litoral Cearense, enquanto os guardas zelam pela segurança dos turistas. O Dédé exibe com orgulho o seu patriotismo mas avisa que não vende fiado. E as rendeiras começam a expor os seus trabalhos.
 
É muito cedo e a praia ainda está deserta, mas no mercado do peixe a azáfama já é grande. Os merendeiros, são figuras típicas que com a  bicicleta carregada, oferecem café fresco, sumos e tapioca.

É esta a minha Fortaleza preferida. Quando se misturam pessoas, sons, cheiros e cores, mais um dia começa e o sol ainda não é tão quente.
E nunca levo saudades quando parto, pois acho que volto, e que ela vai estar ali, como sempre, imutável, à minha espera.

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