QUINTA DO ROSSIO

10.11.23
Adoro quando ao ser convidada para a casa de alguém, sou recebida na cozinha. E foi isto que aconteceu quando a Cristina combinou com os colegas do curso de restauro que frequento uma vez por semana, um almoço de verão na quinta da sua família. Entrar numa casa pela cozinha, é literalmente deixar as cerimónias do lado de fora e ganhar um abraço vindo do coração. Foi uma acolhida perfeita que tivemos na Quinta do Rossio, com direito a uma mesa simples, linda e farta no jardim. As conversas fluíram e os assuntos foram muitos e variados, mas a história da Quinta, as obras de conservação ao longo dos anos, o maravilhoso lagar que virou sala de estar, as peças que a Cristina restaura e espalha pela casa, a luz fabulosa que invade todos os espaços, foram temas constantes para aquele grupo de pessoas que tem em comum o gosto de resignificar peças. E esses elementos, aos quais foi dada uma segunda chance, estão por todo o lado: tem pé de máquina que virou mesa, tem mesa de cozinha que se transformou em bancada, baú do parente que veio embarcado do Canadá a decorar o lavabo, janela de madeira que agora é espelho. Enfim, a lista é tão grande, que mais vale observar as imagens com atenção, pois cada uma delas é uma inspiração. Atualmente, a Quinta, além de ser casa da família, também recebe para festas grandes, bodas, almoços informais para pequenos grupos, e inclusive acolhe hóspedes que podem disfrutar da piscina, dos jardins e das belezas das redondezas. Obrigada, Cristina e Francisco, por nos terem proporcionado este dia memorável, nos terem surpreendido com espaços e objetos que tanto têm para contar e dos quais cuidam e falam com um carinho tão especial!

PROJETO RÁPIDO DE FIM DE SEMANA

18.9.23

As minhas filhas, que até à adolescência tiveram sólidos hábitos de leitura, vinham, de há uns anos a esta parte, desprezando esta atividade tão importante. Não sei se por preguiça de comprarem livros, se por alegada falta de tempo, o fato é que um hábito que fez sempre parte da rotina das duas, acabou por ser posto de parte. Até que, recentemente, uma delas voltou da rua com um eReader e a outra, num impulso, resolveu também aderir à novidade. Os tablets são bem pequenos (ecrã de 6") e permitem escrever notas ou aceder ao dicionário. Existem capas da marca à disposição para venda, mas as duas pediram-me se eu poderia colocar mãos à obra e fazer dois estojos exclusivos com local para guardar o fio para carregar. Descoberto um tutorial fácil na Internet, a execução foi simples, prazerosa e terminada em algumas horas no fim de semana. Ler, é um hábito, diria mesmo uma mania, que tenho incorporada à minha rotina. Já perdi a conta de quantos livros li este ano, e chego ao cúmulo de, se um não está do meu agrado, começar um novo e levar ambos adiante ao mesmo tempo. Detalhe, só os leio em inglês, para não perder a fluência na língua e desenvolver ainda mais a gramatica e o vocabulário. Mesmo não sendo daquelas que precisa sentir o cheiro dos livros, nem do tipo que os guarda religiosamente em casa, as miúdas ainda não conseguiram me convencer com o eReader. Talvez um dia. Mas o que é verdade, é que tem funcionado para elas, e bem! 

DECORAR COM SOBRAS

26.8.23

Já lhes aconteceu de ter em casa um objeto, um móvel, que por alguma razão acabou por se partir ou estragar e a tendência, quando isso acontece, é pensar em pôr no lixo uma vez que o que sobrou da peça não vai ter mais préstimo? Pois talvez tenha chegado o momento de olhar com mais atenção para as partes que sobreviveram, uma vez que estas, utilizadas com engenhosidade podem surpreender (e muito) na decoração.

A loiça da avó que foi se partindo e apenas chegou até nós uma peça desirmanada; aquela panela de esmalte que de tanto ir ao lume, queimou, mas a tampa resistiu; pés de máquinas de costura que não estão mais completos e até o móvel que foi sacrificado pelo bicho mas ainda dá para salvar alguns elementos trabalhados, são só algumas das ideias que vai ver a seguir e que, espero, a poderão inspirar para continuar com uma memória daquela peça pela qual tinha tanta estima e carinho mas que por contingências da vida, deixou de estar inteira!

Esta ideia inicial na verdade quem me enviou foi a regina do Guache Atelier, e mostra as loiças herdadas colocadas numa mesa tipo caixa, que fará vezes de expositor. Achei interessante até porque mesas desse estilo não só existem para vender como também não são difíceis de serem reproduzidas por um marceneiro ( ou marido jeitoso):

VIDA NOVA PARA UM MÓVEL DE COZINHA

25.7.23

Se não me engano este móvel saiu exatamente do mesmo apartamento onde se encontrava este outro. Aliás, agora que escrevo isto, a certeza é quase total, quanto mais não seja pois são ambos muito parecidos, e enquanto o outro estava cravado na parede de um quarto de arrumos, este cravado estava num canto da cozinha. De onde foi arrancado sem grande cuidado, diga-se, agravando ainda mais o seu estado de saúde que já não era dos melhores. Por estar fixado num canto, não tinha lateral (o outro tinha, era uma madeira tosca, mas pelo menos existia) e a parede da casa era o seu fundo. Ou seja o que me chegou às mãos, basicamente, foi um armário só com um lado, sem costas, com camadas de tinta e de gordura, mas a essa última característica, já me habituei. Tal como o outro, a cimalha também não é completa, já que estavam ambos colocados em posição de canto, mas quanto a isso, até acho que lhe dá um certo carisma, faz parte da sua história. O que fiz, basicamente, foi pedir a um carpinteiro que me fizesse uma lateral nova, depois desta colocada, lixei até à exaustão tintas velhas e gorduras; e com tinta, stencil e "transfers" elaborei um fundo para o móvel. Por curiosidade, quando descartei as telas plásticas que compunham as portas, estive que tempos a pensar onde iria arranjar rede de galinheiro com buracos que não fossem muito grandes, de modo a não ficarem desproporcionais depois de montadas no móvel. Já andava desmotivada com a procura quando, numa viagem rápida a Copenhaga, e depois e entrar numa rua que não fazia parte do roteiro para esse dia, dou de caras com uma loja enorme da Panduro, marca Dinamarquesa de arte e artesanato que adoro. Entro, e saio de lá feliz da vida com a tela de galinheiro com buracos pequenos e proporcionais, exatamente aquilo que queria! Prova de que quando tem de ser, as coisas acontecem mesmo! Nas fotos que ilustram este post, o móvel aparece colocado sobre dois bancos, pois a cozinha à qual ele se destina ainda não está em condições de o receber, mas breve, breve, irá encontrar o seu lugar em meio a móveis modernos, que decerto realçarão ainda mais a sua rusticidade. E voltarei para mostrar!

PRESENTE CAÍDO DO CÉU

26.6.23

Há alguns meses, meu pai fez 90 anos. Está ótimo de saúde, ágil, com uma cabeça fenomenal. O seu temperamento dinâmico e positivo fá-lo continuar no ativo como presidente das empresas que fundou. Nas horas vagas, joga ténis e pedala. Enfim, pode ter falhado em alguns outros papéis que tenha desempenhado (quem nunca?) mas no quesito viver a vida proactivamente e dedicar-se ao trabalho com energia e perspicácia, sempre foi uma inspiração. Uma pessoa como ele jamais poderia deixar de celebrar a chegada de mais uma década e garanto-vos que fê-lo em grande estilo: duas festas, uma no seu país de origem, outra na terra que o acolheu, com grande parte da família reunida e muuuuitos amigos. Tantos, que uma das minhas filhas chegou a perguntar, admirada: como se pode ter tantos amigos aos 90 anos??!!!? Como imaginam, duas festas em continentes diferentes e a poucos dias de distância uma da outra, envolve esforços de preparação e tudo foi organizado em tempo recorde. Uma comemoração ficou a meu cargo, a outra foi responsabilidade de uma das minhas irmãs; trocamos ideias, partilhamos opiniões e num trabalho de equipa a coisa fluiu e correu bem. Pelo meio desses preparativos ocorreu-me um pensamento frívolo mas óbvio: o que usar? Sou complicada nesse tema, pois não uso vestidos ou saias, nem sigo modas mas ao mesmo tempo não gosto de vestir o trivial e tenho minhas preferências: pantalonas, camisas, certos tipos de decotes, assimetrias e cores fortes. Estava eu nesta, digamos, indefinição, quando fazendo uma limpeza ao apartamento do meu pai em conjunto com a minha irmã, esta encontra uma caixa contendo o que seria uma roupa da minha mãe, descosida. Minha mãe tinha esta característica de desmanchar as roupas quando enjoava delas ou pretendia altera-las. Era no tempo em que se ia à modista e como a abundância de lojas de tecido não era como nos dias de hoje, imagino que este processo de reciclagem seria algo comum há 40, 50 anos. "Toma" diz a minha irmã, "és a única de nós que reutilizas tecidos" completa ela referindo-se aos meus trabalhos de costura, e entrega-me a caixa. Olho para o seu  interior, sou imediatamente atraída pelos desenhos em roxo e laranja dos tecidos e vem-me subitamente à memória uma imagem muito ténue da minha mãe, nos anos 70, cabelo armado, óculos escuros de tamanho XXL, vestido camiseiro e sapatos plataforma. "Achei a minha roupa para a(s) festa(s) do pai" pensei eu ao mesmo tempo que investigava, descobria que apenas metade do vestido estava ali e achava estranho nunca antes ter me deparado com esta caixa. E se as festas saíram em tempo recorde, a roupa também. O meio vestido transformou-se rapidamente em blusa e sem a possibilidade de levar duas mangas, tornou-se uma blusa de uma manga só, a minha cara  no que toca às cores, ao padrão do tecido e ao modelo. Senti-me tão, mas tão bem quando a vesti, era tão eu, estava tão na minha pele que as pessoas à minha volta notaram. Minha mãe já partiu há quase 25 anos, não costumo pensar que ela ainda ande por aí e olhe por nós. Não. Acho mesmo que ela merece o descanso dela e nem sequer tenho o costume de a importunar com pedidos. Ela é hoje em dia uma memória terna, doce, muitas vezes hilariante. Mas desta vez, ousei acreditar que foi esta a forma que ela encontrou de se fazer presente numa ocasião tão importante para o meu pai e para toda a família. E fiquei tão feliz com o presente, literalmente caído do céu.

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