PRESENTE CAÍDO DO CÉU

26.6.23

Há alguns meses, meu pai fez 90 anos. Está ótimo de saúde, ágil, com uma cabeça fenomenal. O seu temperamento dinâmico e positivo fá-lo continuar no ativo como presidente das empresas que fundou. Nas horas vagas, joga ténis e pedala. Enfim, pode ter falhado em alguns outros papéis que tenha desempenhado (quem nunca?) mas no quesito viver a vida proactivamente e dedicar-se ao trabalho com energia e perspicácia, sempre foi uma inspiração. Uma pessoa como ele jamais poderia deixar de celebrar a chegada de mais uma década e garanto-vos que fê-lo em grande estilo: duas festas, uma no seu país de origem, outra na terra que o acolheu, com grande parte da família reunida e muuuuitos amigos. Tantos, que uma das minhas filhas chegou a perguntar, admirada: como se pode ter tantos amigos aos 90 anos??!!!? Como imaginam, duas festas em continentes diferentes e a poucos dias de distância uma da outra, envolve esforços de preparação e tudo foi organizado em tempo recorde. Uma comemoração ficou a meu cargo, a outra foi responsabilidade de uma das minhas irmãs; trocamos ideias, partilhamos opiniões e num trabalho de equipa a coisa fluiu e correu bem. Pelo meio desses preparativos ocorreu-me um pensamento frívolo mas óbvio: o que usar? Sou complicada nesse tema, pois não uso vestidos ou saias, nem sigo modas mas ao mesmo tempo não gosto de vestir o trivial e tenho minhas preferências: pantalonas, camisas, certos tipos de decotes, assimetrias e cores fortes. Estava eu nesta, digamos, indefinição, quando fazendo uma limpeza ao apartamento do meu pai em conjunto com a minha irmã, esta encontra uma caixa contendo o que seria uma roupa da minha mãe, descosida. Minha mãe tinha esta característica de desmanchar as roupas quando enjoava delas ou pretendia altera-las. Era no tempo em que se ia à modista e como a abundância de lojas de tecido não era como nos dias de hoje, imagino que este processo de reciclagem seria algo comum há 40, 50 anos. "Toma" diz a minha irmã, "és a única de nós que reutilizas tecidos" completa ela referindo-se aos meus trabalhos de costura, e entrega-me a caixa. Olho para o seu  interior, sou imediatamente atraída pelos desenhos em roxo e laranja dos tecidos e vem-me subitamente à memória uma imagem muito ténue da minha mãe, nos anos 70, cabelo armado, óculos escuros de tamanho XXL, vestido camiseiro e sapatos plataforma. "Achei a minha roupa para a(s) festa(s) do pai" pensei eu ao mesmo tempo que investigava, descobria que apenas metade do vestido estava ali e achava estranho nunca antes ter me deparado com esta caixa. E se as festas saíram em tempo recorde, a roupa também. O meio vestido transformou-se rapidamente em blusa e sem a possibilidade de levar duas mangas, tornou-se uma blusa de uma manga só, a minha cara  no que toca às cores, ao padrão do tecido e ao modelo. Senti-me tão, mas tão bem quando a vesti, era tão eu, estava tão na minha pele que as pessoas à minha volta notaram. Minha mãe já partiu há quase 25 anos, não costumo pensar que ela ainda ande por aí e olhe por nós. Não. Acho mesmo que ela merece o descanso dela e nem sequer tenho o costume de a importunar com pedidos. Ela é hoje em dia uma memória terna, doce, muitas vezes hilariante. Mas desta vez, ousei acreditar que foi esta a forma que ela encontrou de se fazer presente numa ocasião tão importante para o meu pai e para toda a família. E fiquei tão feliz com o presente, literalmente caído do céu.

REMODELAÇÃO DE UMA CASA NA VILA (PARTE I)

4.5.23

A casa foi comprada num impulso: o marido tem um carinho especial pela vila, terra dos avós e da mãe; eu deixei-me levar pelas simples linhas arquitetónicas da construção. Entre indagar quem seriam os donos, encontrarmo-nos com eles e fazermos a escritura, não sei precisar, mas foi tão rápido que de repente vimo-nos com o menino nos braços: uma casa dos anos 50, com adega e primeiro andar, num terreno que nunca mais acabava, muitas ideias na cabeça e poucas certezas. A revelação deu-se quando numa visita a casa, num dia daqueles em que se vai lá para olhar à volta e sentir o que ela pedia, vemos um alçapão no teto da cozinha e decido subir por ali para verificar o estado da estrutura do telhado. É difícil expressar por palavras a alegria que me invadiu quando a lanterna do telemóvel iluminou uma das estruturas mais bonitas que já vi em toda a minha vida de arquiteta (e creiam, já lá vão mais de 30 anos e bastante experiência em remodelações): não só as madeiras estavam bem preservadas, como traves e vigas formavam um desenho bem fora do vulgar, com os elementos em esforço convergindo para dois pontos centrais que pairavam no ar. Voltei para baixo com a convicção de que desse para onde desse, uma coisa era certa: a estrutura de suporte do telhado iria ficar completamente à vista. E foi assim que se passaram alguns anos desde o dia dessa súbita inspiração: o projeto foi desenhado, submetido e aprovado pela câmara e as obras começaram lentamente de acordo com a disponibilidade do nosso tempo e do nosso bolso também. Os trabalhos ainda estão longe de acabar, mas entre paredes atiradas a baixo, novos vãos rasgados e uma delicada pesquisa na renovação e preservação do telhado, a visão daquele dia à luz do telemóvel, com os pés cuidadosamente equilibrados em duas vigas para não pisar em falso, já se concretiza. Mesmo na confusão da empreitada, já há mais leveza no ar e toneladas de luz a invadir todos os cantos. Na minha cabeça, os espaços já se encontram totalmente acabados, aqui no blogue vou continuar a mostrá-los, em vários episódios, consoante os progressos, seguindo as minhas intuições e principalmente ouvindo o que a casa pede. 

DA PÁSCOA...

10.4.23

Páscoa é renascimento, reflexão e esperança. Época de recomeços. De sentarmos à mesa juntos e celebrarmos. Por razões várias, já não venho a tempo de desejar uma Feliz Páscoa, mas deixo a mesa que fiz para festejar a quadra. Mesa essa que, graças às temperaturas convidativas que se fizeram sentir, acabou transferida para o terraço. Foi tudo um pouco corrido mas nos 45 da segunda parte, ainda surgiu um bolo de espinafres confecionado pelo marido, e um DIY simples que deixo no final do post.        

Que tenham sido dias de alegria e saudável convívio, é o que desejo a todos os que por aqui passam!

BOWLS EM PAPIER MÂCHÉ FORRADOS COM TECIDO

24.3.23

Sempre admirei os trabalhos em papier mâché que casualmente encontro nas minhas navegações pela net. Vejo esculturas e formas fabulosas, com os mais variados acabamentos e aplicadas aos mais incríveis objetos, de utilitários a decorativos. Tinha uma vontade imensa de experimentar a técnica e no início do ano acabei por inscrever-me num workshop, que pelas suas características, praticamente apenas deu para aprender a receita e o processo de enformar e tirar do molde. Isto porque era inverno, a humidade no ar estava em níveis máximos e foram precisos mais de 15 dias para que as peças executadas secassem completamente e pudessem ser trabalhadas. No fundo, fiquei com a noção dos passos principais, o que para mim era suficiente pois a minha ideia desde o início foi sempre conjugar de alguma forma a técnica do papier mâché com o patchwork e um plus que englobasse fitas e contas. Sem tempo útil para acabar as peças no decurso do workshop, acabei por trazê-las para casa "despidas" e decorá-las por minha conta e risco da forma que as tinha imaginado. Resultaram em duas taças (a mais pequena não estava no programa, foi só para aproveitar as sobras da pasta) bastante rústicas e mais decorativas do que propriamente utilitárias, devido a não poderem ser lavadas, apesar de ambas terem levado uma boa camada final de cola branca, o que sempre impermeabiliza qualquer coisa. São peças interessantes, alegres, descontraídas que me fizeram ter vontade de ir mais além. Desta vez aliei a técnica aos tecidos -que são uma das minhas paixões- talvez um dia consiga associar o papier mâché à renovação de móveis -outro apego grande que tenho na vida. Enfim, ideias não me faltam e vontade também não! Mais abaixo, deixo a receita usada e um tutorial para quem quiser se aventurar: vem aí o bom tempo, meio caminho andado para imaginar peças lindas e coloridas e as concretizar num piscar de olhos!

MESA DE APOIO INDIANA

6.2.23

Apesar do título que dei a esta postagem, não tenho certeza que a mesa tenha vindo da Índia, mas tendo em conta o estilo e também o fato de que a pessoa que a ofereceu passou parte da vida naquele país, é muitíssimo provável que a peça seja originária de lá. De vez em quando a minha cunhada lembra-se de me entregar o que tem lá em casa partido ou bastante estragado pelo uso, na esperança que eu faça algum milagre. Quase sempre passa meses guardado até eu me entusiasmar com o que me foi confiado, seja porque geralmente são peças que não fazem muito o meu gosto ou porque precisam de um restauro propriamente dito e não de um New look, e não sou nem pouco mais ou menos restauradora. A mesinha, dobrável, em madeira exótica trabalhada e um tampo em latão, estava partida e o verniz escuro que a cobria, não dava realce ao desenho rebuscado dos pés. Portanto a minha função foi basicamente fazer uma limpeza profunda, colar o elemento partido e dar-lhe um acabamento que conferisse leveza, no caso, cera. O resultado final pode não arrancar "uaus" de admiração e a mesinha não ser protagonista de um antes e depois impressionável, mas há peças mesmo assim, que não pedem roupagem nova, apenas cuidado e apreço. Uma espécie de afago que lhes levante a auto estima.


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